sábado, 16 de dezembro de 2017




adormeço mergulhado na lama das palavras, 
não são os meus olhos que as desfazem, 
são elas que já nascem desfeitas: 
os meus olhos e as palavras têm o mesmo destino. 







 Rui Nunes
(Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017




Aqui não acontece nada,
 salvo o tempo,
 irrepetível
 música que ressoa, 
extinta já, 
num coração oco, abandonado, 
que alguém toma um momento, 
 escuta
 e arremessa 







 Ángel González (Trad Albino M )
 (Foto de Nishe)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

fora de pé




Desiste de falar  Ninguém virá 
abrir nenhuma porta  responder
 ao vazio  Agradece 
essas poucas migalhas  Mendiga 
seja a quem for apenas mais um dia 

 Abdica de tudo   desse trono 
de barro   Estás enfim
 longe da terra  sim  cada vez mais
 fora de pé 
fora de ti   à deriva
 talvez sem salvação  A partir de hoje 
deixaste de ser tu    de dizer «eu» 

 O amor é talvez isto    «Viver num 
coração dentro de outro coração» 

O amor é assim  só te ensina
 a perder 

 O amor      desamor-próprio 








 Fernando Pinto do Amaral

sábado, 2 de dezembro de 2017




E uma vontade de rir, nasce do fundo do ser
 E uma vontade de ir, correr o mundo e partir 
A vida é sempre a perder





domingo, 26 de novembro de 2017




Continua a voltar frequentemente e a tomar-me, 
Sensação amada continua a voltar e a tomar-me, 
Quando acorda a memória do corpo, 
E desejo antigo volta a passar no sangue; 
Quando os lábios e a pele se lembram, 
E sentem as mãos como se tocassem de novo. 
Continua a voltar frequentemente e a tomar-me à noite, 
Quando os lábios e a pele se lembram 







 Konstandinos Kavafis

quinta-feira, 23 de novembro de 2017




Hoje todas as sílabas da noite são o teu nome. Todas as lâmpadas
 acesas revelam o teu corpo. Todos os silêncios são um telefone que
 não toca. E a boca nos teus cabelos, e a mão delineando o rosto --- a 
 língua que acende a pálpebra, a água da pele diluindo as horas. O 
 calor da respiração ateando o lume da ausência. As ruas vazias. 






 Al Berto
(Foto de Cristina Coral)

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

sei o papel de cor




Estou aqui, 
 agitando os baldes que a chuva 
 encheu durante a madrugada
 para evitar que o silêncio faça mais vítimas. 
 Fui colocar essa peruca de pardais e vim
 a voar até aqui acima, 
 e agora não sei como inventar as escadas para descer. 
 Dizes que é apenas uma questão de tempo,
 que só foste renovar o contrato para não ficares assim com
 o pé no vazio. 

 Já nem reparas, 
 mas estou aqui como um animal pré-histórico 
 a ficar enternecido com a bailarina
 da tua caixa musical.
 Aguardo, ainda, como qualquer vulcão lunar
 o fim da era glaciar. 

 Passo a mão pelos cabelos molhados,
 chove,
 outra vez.
 Há ecos de corpos rasgados 
na gargalhada dos palhaços
 e as hienas começam a ficar impacientes: 
 é tarde mas sobretudo urgente.

 Deixa-me pôr esse vestido 
 com corte jovem demais para o meu corpo em queda.
 É a minha vez. 
 Sei o papel de cor. 
 Mas não chego para uma história. 







 Golgona Anghel

quarta-feira, 15 de novembro de 2017




Da alma só sei o que sabe o corpo:
 onde a esperança e a graça
 aspiram ao ardor
 da chama é a morada do homem. 
 Vê como ardem as maçãs
 na frágil luz de Inverno. 
 Uma casa devia ser 
 assim: brilhar ao crepúsculo
 sem usura nem vileza
 com as maçãs por companhia. 
 Assim: limpa, madura. 






 Eugénio de Andrade

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

uma saudade sem recomeços




Tudo entre nós foi dito 
Estamos cansados e tristes
 neste Outono de folhas pairando
 e caindo.
 Entre nós as palavras colocam um mundo 
de silêncio e vazio estéril. 
Os próprios sonhos se encheram de neblinas 
e o tempo os amarelece. 
Outono de cismo, de folhas secas
 e bancos abandonados de cimento frio 
Onde não cantam aves
 e o vento desce em brandos rodopios. 
Apenas uma vaga angústia presente,
 uma saudade sem recomeços,
 a lembrança, tépida a gelar como
 veios de mármore. 
Tudo entre nós foi dito,
 olhamos o apodrecer do parque, 
o vento, o repicar leve das folhas
 e sem ressentimentos dizemos adeus.







 Rui Knopfli
 (Foto de Natalia Drepina)

domingo, 5 de novembro de 2017

melancolias




Foto de Sónia Silva


O Outono vem vindo, chegam melancolias,
 cavam fundo no corpo, 
 instalam-se nas fendas; às vezes 
 por aí ficam com a chuva
 apodrecendo;
 ou então deixam marcas, as putas, 
 difíceis de apagar, de tão negras,
 duras. 






 Eugénio de Andrade

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

fogo posto




Mais do que terra, momentos
 houve em que quis deitar para a fornalha
 o coração e as outras coisas todas 
para as quais não encontro nomes rigorosos 







 José Ricardo Nunes

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

nuvens




Foto de Lurdes Júdice


 É tão bom ser nuvem, 
 ter um corpo leve, 
 e passar, passar.
 Leva-me contigo. 
 Quero ver Granada. 
 Quero ver o mar.
  Granada é longe, 
 o mar é distante, 
 não podes voar.
 Para que te serve 
 ser nuvem, se não
 me podes levar? 

Serve para te ver.
 E passar, passar







Eugénio de Andrade

domingo, 29 de outubro de 2017

não sabes




Como dizer que este amor não morre ? Mil 
vezes olhei essa porta, por ti desejei 
chegar a terra, perder um grito onde ninguém 
ouvisse. E quando íamos falando de tudo
 só isso proibia calar o amor. Algumas vezes 
não sabes as coisas que mais guardo.







 Hélder Moura Pereira
 (Foto de Cristina Coral)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

qual é a tua razão de ser?




À vinda do supermercado
 diz-me o pequeno monstro 
que às vezes me faz companhia:
 «E qual é a tua razão de ser?» 

 Na rua, a tarde rola devagar 
entre prédios murchos — e ele
 acrescenta: «Não me digas 
que são os versos.»

 E ri-se 





 Rui Pires Cabral

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

como poderíamos não nos ter perdido?




Não valia a pena esperar, ninguém viria 
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
 estávamos sós e essa solidão éramos nós;
 e era indiferente sabê-lo ou não,
 ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia: 
o grito era a própria indiferença. 
 Presente, apenas presente;
 a memória, presente, 
a esperança, presente.
 E, no entanto, houvera um tempo
 em que tínhamos sido talvez felizes,
 quando não nos dizia respeito a felicidade, 
 e em que tínhamos estado perto 
de alguma coisa maior que nós 
ou do nosso exacto tamanho. 
 Como um animal devorando-se
 por dentro a si mesmo,
 consumira-se, porém,
 o pouco que nos pertencera, os dias e as noites, 
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
 palavra “cerejeira” ainda em carne na jovem boca. 
 Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse, 
nenhuma renúncia que nos prendesse
 ou nos libertasse, nenhuma compaixão que
 nos devolvesse o ser
 ou o mesmo, 
ou fosse a morada de algo inumano como um coração.
 Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
 nenhumas pálpebras se abriam, 
como poderíamos não nos ter perdido? 
 Entre 10 elevado a mais infinito
 e 10 elevado a menos infinito, 
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul, 
 sós, 
sem ninguém à escuta, 
nem a nossa própria voz. 






 Manuel António Pina
 (Foto de Cristina Coral)

domingo, 22 de outubro de 2017

quarta-feira, 18 de outubro de 2017




As frases ditas no amor 
guardo-as como sementes
 para dar de comer à fome antiga
 perene e insaciada
 quando chegar o inverno 






 Adelaide Amorim

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

casa




Quando o ser da luz for
 o ser da palavra, 
 no seu centro arder
 e subir com a chama
 (ou baixar à água)
 então estarei em casa. 






 Eugénio de Andrade

sexta-feira, 13 de outubro de 2017




Nunca encontrei mulher mais cobarde do que eu.
 Recapitulo: mulheres que estão à espera como eu, 
 não, nenhuma é assim tão cobarde






 Marguerite Duras
 (Foto de Saul Leiter)

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

aquiles





( tu não fazes a barba
 e eu não sei onde guardei o manual de sobrevivência
 das minhas secretas fragilidades)






segunda-feira, 9 de outubro de 2017

o amor é para os parvos




Inevitável. A palavra certa é inevitável e lembro-me que foi essa a palavra que me ocorreu enquanto te abraçava e tu me abraçavas a mim. Era forçoso que assim fosse, não porque o quisesses tu ou o desejasse eu. Não porque não te amasse, ou porque não me quisesses tu. Simplesmente tinha de acabar, de uma forma ou de outra e, sendo assim, antes terminasse com um abraço. Mas tinha que acabar. São coisas que não se explicam, ou que, tendo explicação, não podem justificar-se recorrendo às escorreitas equações da lógica. Eu gosto-te, tu gostas-me; logo: separámo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo que ser assim e não podia ser de outra maneira. E, se calhar, tinhas razão – o amor é mesmo para os parvos.







 Manuel Jorge Marmelo

domingo, 8 de outubro de 2017

estou afinad(a)




(...) 
 Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não peço. Não morro. 
 A não ser que me sobrevenha uma embolia ao baralho. Ao caralho.
 Por isso, conservo-me em álcool. Como os miúdos fazem às cobras.
 O formol é para os Deuses. 






 Miguel Martins

sexta-feira, 6 de outubro de 2017




A vida

 Eis o que eu dava para nunca te ter visto
 ou para te ver só mais uma vez







 Miguel Esteves Cardoso

terça-feira, 3 de outubro de 2017

– socorro –




Não ter um Deus 
não ter um túmulo
 não ter nada de certo
 mas apenas coisas vivas que nos fogem – 
existir sem ontem
 existir sem amanhã
 e cegar no vazio
 – socorro – 
pelo sofrimento 
que não tem fim – 






 Antonia Pozzi
 (Foto de Anna O)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

(cortar)




A mulher não pára de correr. Volta para trás e recomeça. 
O medo recomeça um tempo cada vez mais curto que se
 lhe enrola aos pés. E um tempo depois. Um tempo de
 náusea, pronto a apodrecer como tudo o que está acabado 
Tempo de uma frase que há-de contar (cortar) como
 todas as frases. Que há-de resumir. Mas um som? um 
som cria a sua raiz. E único. Interminável. Uma pedra
 a bater






 Rui Nunes
 (Foto de Mariam Sitchinava)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

não tinha que ser





Não foi porque não tinha que ser. Quantas vezes eu já ouvi e repeti isso? Mas será que não era mesmo? Ou eu fiz não ser? Não sei. Só sei que o tempo não volta, e nesse caso específico, um dia tivémos outra oportunidade mas assim como as águas nunca voltam iguais, a oportunidade também não se mostrou a mesma. Aí lembro de uma citação do filme “2046” onde o amor tem a ver com o tempo: não adianta encontrar a pessoa certa demasiado tarde ou cedo demais. Então concluo que não foi a oportunidade que já não era a mesma, era o tempo que já era outro. Não estou com saudades não, nem arrependida. E confesso, faz tanto tempo que não sei nem contar os anos desde aquele dia. É que hoje vim de carona. E ouvimos um único cd o percurso inteiro. O mesmo cd que num fim de semana qualquer do passado tocou sem parar. Músicas que meses depois, num pedido de “perdão”, ganhei num dvd e num cartão que ainda não tive coragem de jogar fora. Nunca assisti esse DVD. Não queria nada que lembrasse aqueles dias. Mas a lembrança não obedece a gente. Nem os outros sabem dos segredos que guardamos, ou melhor, enterramos dentro da gente. Só sei que aquelas músicas tocaram hoje sem parar. Uma seguida da outra. E eu ainda sabia todas as letras. E como um filme, pela janela eu via uma estrada vazia, chuva no pará-brisa, árvores e uma mão na minha coxa.




Clarice Lispector

terça-feira, 19 de setembro de 2017




talvez me vá embora 
sem que ninguém dê por isso.

 assim um pássaro
 descansando do voo
 num verso da noite. 

 às vezes a alma gosta
 de trair a morte.






 Emanuel Jorge Botelho
(Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

domingo, 17 de setembro de 2017

coisas vagas




Por sorte andas bem longe, lá por fora, 
já me esqueci de ti completamente. 
É mais fácil assim, saber-te ausente, 
corre mais fina a vida junto à morte.
 Na caixa do correio só encontro 
cartas de beis imperadores, promessas 
de palácios talhados em sal-gema, 
ouros, tesouros, e outras coisas vagas; 
férias, talvez, no sultanato opaco
 onde me aguarda um paraíso intacto 
de virgens falsas e reais eunucos.
 Entre os meus dedos fica o lugar oco
 onde tão certo deixo esse postal
 ilustrado do teu esquecimento.







 António Franco Alexandre
 (Foto de Natalia Drepina)

quinta-feira, 14 de setembro de 2017




aviso amarelo de vento no ecrã, 
mais um dia para ter cuidado com os atiradores de facas





flor


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

um homem de coração prefácio à espera de ser escrito




Tragam-me um homem que me levante com
 os olhos
 que em mim deposite o fim da tragédia
 com a graça de um balão acabado de encher
 tragam-me um homem que venha em baldes, 
solto e líquido para se misturar em mim 
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
 leve, leve, um principiante de pássaro
 tragam-me um homem que me ame em círculos
 que me ame em medos, que me ame em risos 
que me ame em autocarros de roda no precipício 
e me devolva as olheiras em gratidão de 
 estarmos vivos 
um homem homem, um homem criança
 um homem mulher
 um homem florido de noites nos cabelos 
um homem aquático em lume e inteiro
 um homem casa, um homem inverno
 um homem com boca de crepúsculo inclinado 
de coração prefácio à espera de ser escrito
 tragam-me um homem que me queira em mim 
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
 um homem mundo onde me possa perder
 e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
 atirando-me à ilusão de sermos duas 
 novíssimas nuvens em pé. 








 Cláudia R. Sampaio
 (Foto de Laura Makabresku)