segunda-feira, 16 de outubro de 2017

casa




Quando o ser da luz for
 o ser da palavra, 
 no seu centro arder
 e subir com a chama
 (ou baixar à água)
 então estarei em casa. 






 Eugénio de Andrade

sexta-feira, 13 de outubro de 2017




Nunca encontrei mulher mais cobarde do que eu.
 Recapitulo: mulheres que estão à espera como eu, 
 não, nenhuma é assim tão cobarde






 Marguerite Duras
 (Foto de Saul Leiter)

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

aquiles





( tu não fazes a barba
 e eu não sei onde guardei o manual de sobrevivência
 das minhas secretas fragilidades)






segunda-feira, 9 de outubro de 2017

o amor é para os parvos




Inevitável. A palavra certa é inevitável e lembro-me que foi essa a palavra que me ocorreu enquanto te abraçava e tu me abraçavas a mim. Era forçoso que assim fosse, não porque o quisesses tu ou o desejasse eu. Não porque não te amasse, ou porque não me quisesses tu. Simplesmente tinha de acabar, de uma forma ou de outra e, sendo assim, antes terminasse com um abraço. Mas tinha que acabar. São coisas que não se explicam, ou que, tendo explicação, não podem justificar-se recorrendo às escorreitas equações da lógica. Eu gosto-te, tu gostas-me; logo: separámo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo que ser assim e não podia ser de outra maneira. E, se calhar, tinhas razão – o amor é mesmo para os parvos.







 Manuel Jorge Marmelo

domingo, 8 de outubro de 2017

estou afinad(a)




(...) 
 Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não peço. Não morro. 
 A não ser que me sobrevenha uma embolia ao baralho. Ao caralho.
 Por isso, conservo-me em álcool. Como os miúdos fazem às cobras.
 O formol é para os Deuses. 






 Miguel Martins

sexta-feira, 6 de outubro de 2017




A vida

 Eis o que eu dava para nunca te ter visto
 ou para te ver só mais uma vez







 Miguel Esteves Cardoso

terça-feira, 3 de outubro de 2017

– socorro –




Não ter um Deus 
não ter um túmulo
 não ter nada de certo
 mas apenas coisas vivas que nos fogem – 
existir sem ontem
 existir sem amanhã
 e cegar no vazio
 – socorro – 
pelo sofrimento 
que não tem fim – 






 Antonia Pozzi
 (Foto de Anna O)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

(cortar)




A mulher não pára de correr. Volta para trás e recomeça. 
O medo recomeça um tempo cada vez mais curto que se
 lhe enrola aos pés. E um tempo depois. Um tempo de
 náusea, pronto a apodrecer como tudo o que está acabado 
Tempo de uma frase que há-de contar (cortar) como
 todas as frases. Que há-de resumir. Mas um som? um 
som cria a sua raiz. E único. Interminável. Uma pedra
 a bater






 Rui Nunes
 (Foto de Mariam Sitchinava)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

não tinha que ser





Não foi porque não tinha que ser. Quantas vezes eu já ouvi e repeti isso? Mas será que não era mesmo? Ou eu fiz não ser? Não sei. Só sei que o tempo não volta, e nesse caso específico, um dia tivémos outra oportunidade mas assim como as águas nunca voltam iguais, a oportunidade também não se mostrou a mesma. Aí lembro de uma citação do filme “2046” onde o amor tem a ver com o tempo: não adianta encontrar a pessoa certa demasiado tarde ou cedo demais. Então concluo que não foi a oportunidade que já não era a mesma, era o tempo que já era outro. Não estou com saudades não, nem arrependida. E confesso, faz tanto tempo que não sei nem contar os anos desde aquele dia. É que hoje vim de carona. E ouvimos um único cd o percurso inteiro. O mesmo cd que num fim de semana qualquer do passado tocou sem parar. Músicas que meses depois, num pedido de “perdão”, ganhei num dvd e num cartão que ainda não tive coragem de jogar fora. Nunca assisti esse DVD. Não queria nada que lembrasse aqueles dias. Mas a lembrança não obedece a gente. Nem os outros sabem dos segredos que guardamos, ou melhor, enterramos dentro da gente. Só sei que aquelas músicas tocaram hoje sem parar. Uma seguida da outra. E eu ainda sabia todas as letras. E como um filme, pela janela eu via uma estrada vazia, chuva no pará-brisa, árvores e uma mão na minha coxa.




Clarice Lispector

terça-feira, 19 de setembro de 2017




talvez me vá embora 
sem que ninguém dê por isso.

 assim um pássaro
 descansando do voo
 num verso da noite. 

 às vezes a alma gosta
 de trair a morte.






 Emanuel Jorge Botelho
(Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

domingo, 17 de setembro de 2017

coisas vagas




Por sorte andas bem longe, lá por fora, 
já me esqueci de ti completamente. 
É mais fácil assim, saber-te ausente, 
corre mais fina a vida junto à morte.
 Na caixa do correio só encontro 
cartas de beis imperadores, promessas 
de palácios talhados em sal-gema, 
ouros, tesouros, e outras coisas vagas; 
férias, talvez, no sultanato opaco
 onde me aguarda um paraíso intacto 
de virgens falsas e reais eunucos.
 Entre os meus dedos fica o lugar oco
 onde tão certo deixo esse postal
 ilustrado do teu esquecimento.







 António Franco Alexandre
 (Foto de Natalia Drepina)

quinta-feira, 14 de setembro de 2017




aviso amarelo de vento no ecrã, 
mais um dia para ter cuidado com os atiradores de facas





flor


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

um homem de coração prefácio à espera de ser escrito




Tragam-me um homem que me levante com
 os olhos
 que em mim deposite o fim da tragédia
 com a graça de um balão acabado de encher
 tragam-me um homem que venha em baldes, 
solto e líquido para se misturar em mim 
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
 leve, leve, um principiante de pássaro
 tragam-me um homem que me ame em círculos
 que me ame em medos, que me ame em risos 
que me ame em autocarros de roda no precipício 
e me devolva as olheiras em gratidão de 
 estarmos vivos 
um homem homem, um homem criança
 um homem mulher
 um homem florido de noites nos cabelos 
um homem aquático em lume e inteiro
 um homem casa, um homem inverno
 um homem com boca de crepúsculo inclinado 
de coração prefácio à espera de ser escrito
 tragam-me um homem que me queira em mim 
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
 um homem mundo onde me possa perder
 e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
 atirando-me à ilusão de sermos duas 
 novíssimas nuvens em pé. 








 Cláudia R. Sampaio
 (Foto de Laura Makabresku)

sábado, 9 de setembro de 2017




Setembro traz consigo os dias curtos. 
Tens de encontrar um refúgio, por mais pequeno que seja. 










Vítor Nogueira

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

As curvas entornam-nos




O tamanho do teu nome
 Quase já não se nota 
Na estrada onde caminhas

Já não sei onde mora 
A cor do sol

Pela estrada 
onde caminhas 
As curvas entornam-nos
 Sucessivamente. 









 Daniel Faria

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

um pretexto para o silêncio




Se espera que la lluvia pase. Se espera que los vientos lleguen. Se espera. Se dice. Por amor al silencio se dicen miserables palabras. 
Un decir forzoso, forzado, un decir sin salida posible, por amor al silencio, por amor al lenguaje de los cuerpos.
 Yo hablaba. En mí el lenguaje es siempre un pretexto para el silencio.
 Es mi manera de expresar mi fatiga inexpresable 






 Alejandra Pizarnik

terça-feira, 29 de agosto de 2017

a indiferença que magoa




vai ser sublime
 a dor que fica presa aos olhos, 
o amor exacto que perdura. 
Ensino-te maneiras, hebraico, filosofia, 
a diferença que magoa e mata,
 a indiferença que magoa e mata. Vai ser 
uma amizade sem tabaco nem drogas,
 quimicamente pura e sem sonetos. 
Mais tarde receberei a coroa de linho
 amoris causa, das tuas mãos decentes 







 António Franco Alexandre

terça-feira, 22 de agosto de 2017

pediste-me o livro da emoção




Melhor fora que viesses sem saber
 de mim o que quer que fosse. 
Isso é que seria recomeçar a valer
 e não apenas com o que te trouxe.
 Para que isto não ficasse viciado
 à partida, protegia metade da alma. 
A metade que, quando estou deitado,
 fica para baixo e me acalma.
 Que corpo afectivo e voraz
 me deixa assim contente e vivo? 
O corpo que sempre me traz 
razão activa ao meu ser passivo.
 Pediste-me o livro da emoção
 e nele não leste nenhum compromisso. 
Discutimos antes a decoração,
 um de nós tem de ceder nisso. 






 Helder Moura Pereira
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

sábado, 19 de agosto de 2017

o tempo em que festejavam o dia dos meus anos




Não se aprende grande coisa com a idade. 
Talvez a ser mais simples,
 a escrever com menos adjectivos.
 Demoro-me a escutar um rumor.
 Pode ser o prelúdio tímido ainda
 do cantar de um pássaro, uma gota 
de água na torneira mal fechada, 
a anunciação do tão amado
 aroma dos primeiros lilazes. 
Seja o que for, é o que me retém 
aqui, me sustenta, impede de ser 
uma qualquer vibração da cal, 
simples acorde solar, um nó
 de luz negra prestes a explodir. 






 Eugénio de Andrade
(Foto de Natalia Drepina)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017




Chegou o intervalo e a história não acaba.
 Acabou o poema e a vida ainda não chega. 






 Armando Silva Carvalho

terça-feira, 15 de agosto de 2017




Quando vivemos tanto que temos de pagar excesso
 há algo no amor como uma luz suicida, 
é talvez só isso, 
havendo amores que duram algo menos que um beijo, 
e beijos que duram algo mais que uma vida.






 Luis Rosales

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

abraços desfeitos




É simples a separação. 
Adeus. 
Desenlaçado o último abraço, uma pressa de dar contas um ao outro. 
Já não há gestos. O derradeiro (impossível) seria não desfazer o abraço. 
Pressa de cada um retomar o outro na teia lenta da remembrança. 
Não desfazer o abraço. Ficar face encostada ao niagara dos cabelos. 
Sobram fotografias, voz no gravador, um bilhete na caixa do correio. Sobra o telefone. 
Tensão - telefone. Experimentada. Sofrida. 
Tensão - telefone. Possibilidade de voz não póstuma. 
No gravador, voz de ontem, de anteontem. De há anos. 
Sobra o telefone. Mudo. 
Retininte? 
Sobrarão as cartas. Sobra a espera. 
Na teia lenta da remembrança, retomo-te em memória recente: 
 na praia de ternura onde nos enrolámos e desenrolámos 
 desesperados de separação. 
Sobra a separação. 






Alexandre o'Neill

terça-feira, 8 de agosto de 2017

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

simples mentiras






( continuamos a fingir que estamos de férias, 
em lugares tão azuis que nos deixam cegos os olhos
 para que não possam ver a lentidão com que este mês 
teima sempre em passar)






sábado, 5 de agosto de 2017




Estou no meu quarto. Deitada na minha cama. A luz está acesa. Oiço música. Penso em ti mas não é em ti. É um tu abstracto 
porque a tua ausência é uma lesão incurável que se imaterializa com o tempo. Por fim adormeço. 






 Ana Hatherly

sexta-feira, 4 de agosto de 2017





há-de uma grande estrela cair no meu colo







Else Lasker-Schüler 
(Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017




Concentro os olhos no mais precário
 lugar do teu corpo: morre-se 
 em Agosto com as aves: 
 de solidão. 

 Neste instante sou imortal: 
 tenho os teus braços em redor
 do corpo todo: 
 as areias escaldam: é meio-dia. 

 Do teu peito avista-se o mar
 caindo a prumo:
 morre-se em Agosto na tua boca: 
 com as aves







 Eugénio de Andrade

terça-feira, 1 de agosto de 2017

agosto





dizes que vais de ferias 
para um lugar paradisíaco
 em amorosa companhia 

 (são assim as mais simples mentiras)






sábado, 29 de julho de 2017

é sempre a mesma voz que não perdoa




Eu vi o sobressalto. 
Nesse bosque de lâminas e luvas
 tocaste cada coisa como
 um grito. 

 E amaste a minha boca
 como quem corta
 os pulsos ao silêncio. 

 Se o vento te derrama 
entre folhas e cinza 
é sempre a mesma voz que não perdoa

 a mesma lei

 o mesmo labirinto 






 Armando da Silva Carvalho

sexta-feira, 28 de julho de 2017

o amor está de volta





Se as tuas noites não têm mais fim 
 Se um desalmado te faz chorar 
 Deixa cair um lenço 
 Que eu te alcanço 
 Em qualquer lugar






quarta-feira, 26 de julho de 2017

dá-me para a melancolia




Só mais um dia, 
um dia luminoso e barulhento
 por mim a dentro, 
um dia bastaria, 
em prosa que fosse. 

 Mas  dá-me para a melancolia
 para a limpeza, para a harmonia,
 impacientam-me as migalhas 
de pão na mesa, as falhas
 da pintura do tecto,
 as vozes das visitas, despropositadas, 
sinto-me sujo como um objecto, 
desapegado, desarrumado. 

 Trocaria bem esse dia
 por um pouco de arrumação
 - no quarto e no coração. 






 Manuel António Pina

segunda-feira, 24 de julho de 2017

sexta-feira, 21 de julho de 2017

certos amores




Tenho saudades, dizias.
 Saudades do que foi, do que está a ser, do que será, sobretudo do que não será






 Manuel Alegre  (A Terceira Rosa)