sexta-feira, 18 de agosto de 2017




Chegou o intervalo e a história não acaba.
 Acabou o poema e a vida ainda não chega. 






 Armando Silva Carvalho

terça-feira, 15 de agosto de 2017




Quando vivemos tanto que temos de pagar excesso
 há algo no amor como uma luz suicida, 
é talvez só isso, 
havendo amores que duram algo menos que um beijo, 
e beijos que duram algo mais que uma vida.






 Luis Rosales

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

abraços desfeitos




É simples a separação. 
Adeus. 
Desenlaçado o último abraço, uma pressa de dar contas um ao outro. 
Já não há gestos. O derradeiro (impossível) seria não desfazer o abraço. 
Pressa de cada um retomar o outro na teia lenta da remembrança. 
Não desfazer o abraço. Ficar face encostada ao niagara dos cabelos. 
Sobram fotografias, voz no gravador, um bilhete na caixa do correio. Sobra o telefone. 
Tensão - telefone. Experimentada. Sofrida. 
Tensão - telefone. Possibilidade de voz não póstuma. 
No gravador, voz de ontem, de anteontem. De há anos. 
Sobra o telefone. Mudo. 
Retininte? 
Sobrarão as cartas. Sobra a espera. 
Na teia lenta da remembrança, retomo-te em memória recente: 
 na praia de ternura onde nos enrolámos e desenrolámos 
 desesperados de separação. 
Sobra a separação. 






Alexandre o'Neill

terça-feira, 8 de agosto de 2017

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

simples mentiras






( continuamos a fingir que estamos de férias, 
em lugares tão azuis que nos deixam cegos os olhos
 para que não possam ver a lentidão com que este mês 
teima sempre em passar)






sábado, 5 de agosto de 2017




Estou no meu quarto. Deitada na minha cama. A luz está acesa. Oiço música. Penso em ti mas não é em ti. É um tu abstracto 
porque a tua ausência é uma lesão incurável que se imaterializa com o tempo. Por fim adormeço. 






 Ana Hatherly

sexta-feira, 4 de agosto de 2017





há-de uma grande estrela cair no meu colo







Else Lasker-Schüler 
(Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017




Concentro os olhos no mais precário
 lugar do teu corpo: morre-se 
 em Agosto com as aves: 
 de solidão. 

 Neste instante sou imortal: 
 tenho os teus braços em redor
 do corpo todo: 
 as areias escaldam: é meio-dia. 

 Do teu peito avista-se o mar
 caindo a prumo:
 morre-se em Agosto na tua boca: 
 com as aves







 Eugénio de Andrade

terça-feira, 1 de agosto de 2017

agosto





dizes que vais de ferias 
para um lugar paradisíaco
 em amorosa companhia 

 (são assim as mais simples mentiras)